O único fato que lembro e que realmente importa foi o obrigado dado ao simpático senhor que atravessava a rua com todas aquelas sacolas aparentemente pesadas. As veias estavam quase pulando dos braços, e além disso, os passos eram lentos como a lentidão de ações em dias frios de inverno.
       Caminhando atrás, pude perceber o triste pesar de ser idoso não sentido por ele em um outro senhor que passava ao lado. Alguns interiorizam as tristezas e até as dificuldades. Acredito que devam ter medo da vida perceber e tornar tudo mais difícil e impossível de ser levado nos ombros.
       Os ombros sustentam muito mais do que um crânio, pois na verdade, os ombros são alvos de pesos insustentáveis, mas mesmo assim, nunca quebram. São como os bambus, que ao serem atingidos por grandes rajadas de vento se dobram. Por outro lado, as tão majestosas árvores se recusam a qualquer submissão e acabam sendo quebradas, partidas como uma fina casca de ovo.
       O senhor com as sacolas concluiu a travessia da rua e o outro que passava perto desapareceu, como se tivesse sido tragado por um buraco. Olhando de perto tive a sensação de já tê-lo visto. Olhei profundamente as marcas da vida em seu rosto: marcas de sorriso, que poderiam ter sido de felicidade ou simplesmente para agradar alguém, mesmo que o sentimento não fosse genuíno. Por que tanta preocupação em viver uma vida genuína, se no final das contas tudo acabará da mesma forma? Por que se preocupar... ?
       Me distrai, tropecei e fui ao chão. Cai como uma banana podre. Cai estatelado e sem nenhuma garantia de levantar sozinho. Cai sem a genuinidade dos próprios passos. Cai e fui traído pelos próprios pés. Alguém pode duvidar dos próprios pés? Esses membros que são direcionados pela nossa vontade? Então... eu quis cair? Quis realmente que meus pés me derrubassem?
       Sentia uma ardência na perna e um certo gelado no braço. Cai numa poça e ralei a perna. Mais tarde teria um encontro entusiasmado com algum analgésico.
Por segundos eu, jovem, sedento e com fome do sucesso, me castigando por não ser perfeito para os outros, estava no chão, onde todos pisam, passando a estar na mesma condição que o próprio chão.
        O senhor parou na minha frente, olhou, colocou as sacolas no chão e com a mesma garra que carregava as sacolas me levantou. Deixou de lado o que lhe causava peso, aliviando o peso que estava sobre o chão.
         Majestosamente me pôs de pé, limpou de forma sorrateira minhas roupas e me surpreendeu ao dizer: - Um idoso como eu cai muitas vezes por dia. Poderia descontar as diversas vezes que me levantei sozinho em você e te deixar ai, caído e me preocupar muito mais com as minhas sacolas e meu ego.
        Fiquei sem reação e somente agradeci.
        Por que estava me sentindo culpado pelas vezes que ele caiu e eu não estava lá para ajudá-lo a levantar?
        Não parou por ai, pois ele ainda disse outras palavras, que para mim valeram como um bilhete de loteria premiado com o prêmio máximo da loteria esportiva: - Hoje, as sacolas foram deixadas de lado para essas mãos te ajudarem a levantar. Essas mãos, que muitas vezes foram crucificadas e acusadas. Hoje, esses olhos que já viram muitas coisas precisaram parar em você e focar bem para saberem que não há dia nem hora para ajudar. Eu volto para minha casa com as mesmas sacolas que antes estava carregando. Você? Seguirá seu rumo, lembrando de apenas um tombo e de um velho que te ajudou a levantar. Não quero um favor em troca, mas gostaria que apenas pensasse em um detalhe: não importa quantas sacolas você está carregando ou qual o tamanho da sua dificuldade, pois se nascemos chorando, o pesar é lucro e a vitória um detalhe que pode ou não nos garantir felicidade.           Olho-me no espelho todas as manhãs e digo: Um dia eu questionei o porque de ter uma imagem, mas hoje, inspira-me olhar-me e ter a certeza que não temos nem teremos todas respostas, pois o tempo passa, e quanto mais passar, mais haveremos de questionar.
       O único fato que lembro e que realmente importa foi o obrigado dado ao simpático senhor que atravessava a rua com todas aquelas sacolas aparentemente pesadas. Mas o que realmente importa? Mais uma página escrita? Bonitas palavras ouvidas? O que realmente importa? O que realmente deve estar sobre os ombros? O que está além de esperar a vida passar para termos respostas?



Os Ombros Suportam o Mundo


Carlos Drummond de Andrade



Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.


Tempo de absoluta depuração.


Tempo em que não se diz mais: meu amor.


Porque o amor resultou inútil.


E os olhos não choram.


E as mãos tecem apenas o rude trabalho.


E o coração está seco.




Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.


Ficaste sozinho, a luz apagou-se,


mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.


És todo certeza, já não sabes sofrer.


E nada esperas de teus amigos.





Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?


Teu ombros suportam o mundo


e ele não pesa mais que a mão de uma criança.


As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios


provam apenas que a vida prossegue


e nem todos se libertaram ainda.


Alguns, achando bárbaro o espetáculo,


prefeririam (os delicados) morrer.


Chegou um tempo em que não adianta morrer.


Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.


A vida apenas, sem mistificação.





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