Noite

      Já era tarde. Na verdade, bem tarde. As galinhas, as avós e as senhoras do convento já estavam dormindo. As galinhas com os galos, as avós com os avôs e as do convento com o terço.
O céu estava límpido e compacto. As estrelas brilhavam soltas, e a lua parecia obesa de tão cheia. A outras noites não haviam sido tão majestosas, portanto apreciar era quase uma obrigação para quem estava acordado.
      O canavial estava quieto e assombrado, assim como os cafezais, videiras e milharal. A vida parecia ter sido tirada desses e posta somente no céu. Naquele momento me pus em primeira pessoa, me tornando o lirista. Como não me empolgar, me deixar ser levado, me emocionar e ficar feliz? Como não ser o reflexo da bela noite? São perguntas, eram perguntas e sempre serão. Não basta estar ciente disso, mas é preciso viver as perguntas.

Lua crua em vestes puras, onde está o seu lamento?
Sou poeta, faço versos e quando os digo viro vento.
Não existem versos presos, pois todos nascem de um momento.
Sou herói, sou vilão e naquela noite não houve um só lamento.

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