Participação na seleta de contos da CBJE





Sérgio Ribeiro Borsoi Júnior

Niterói / RJ

Nos olhos da morena

      Ele andava lentamente com o olhar fixo no caminho rumo ao Banco. Estava acostumado a fazer depósitos bancários todas as terças-feiras. A mochila de couro polido esquentava suas costas e deixava sua pele presa na camisa preta. Se desviava das pessoas que vinham em sua direção com pensamentos incertos e perdidos. A cada esbarrão, um pedido de desculpa. A cada expressão de raiva, a certeza de que a mansidão dos seres humanos está quase extinta. O vento tranquilizador que vinha da praia refrescava seu rosto e a maresia perfumava o ar. Os carros e motos passavam a todo o momento, mas o ronco dos motores rebeldes não o assustava. Estava focado em resolver logo suas pendências para poder almoçar e apreciar o quebrar contínuo das ondas. Em algumas partes do trajeto via crianças sem limites fazendo pirraça com seus pais. Alguns com paciência, somente olhavam para os filhos, porém outros arriscavam beliscões e palmadas para imporem uma simbólica moral. Simbólica, porque a criação dos pequenos está, a cada avanço temporal perdendo dogmas e diretrizes usados antigamente. Uma acomodação visível dos responsáveis, que para evitarem retaliações, preferem abrandar as rédeas.
Foi pensando nisso, que a chegada na agência bancária aconteceu. Respirou fundo, abriu a mochila, retirou o cartão e entrou pela porta giratória. Se posicionou na fila, com umas doze pessoas, colocando a mochila no chão para aliviar sua coluna. O som das máquinas ia dando ritmo ao andamento e em minutos havia chegado a sua vez. Com a mochila ainda no chão, pegou um envelope com a quantia em espécie, distribuindo-a em outros dois envelopes. Ao colocar na máquina, retirou o cartão, finalizando a operação, dando as costas e saindo da agência. Foi impossível não perceber a diferença de temperatura ao entrar em contato com o mormaço do lado de fora. Sentiu por segundos uma sensação extremamente desconfortável. Após andar alguns metros, posicionou-se na faixa de pedestres para atravessar a rua. Estava indo em direção da praia. Aparentemente, estava sozinho ali, mas antes de ter essa certeza, algo impactante chamou a sua atenção. Um olhar não familiar, mas que despertou nele algo extraordinário. Na verdade, um olhar feminino e carregado de charme. Não conseguiria dar meio passo sem aprisioná-la em sua mente.
Com altura mediana, olhos castanhos, pele morena e andar sutil, ela estava parada do seu lado, com os cabelos negros um pouco acima dos ombros sendo balançados pelo vento dos carros que passavam constantemente em filas duplas. A bolsa clara com pele de onça estampada realçava sua saia preta. Bem, não resistiu e a olhou diretamente com certa obsessão, mas sem perder a classe. Para sua surpresa, ela não se espantou, retribuindo o olhar e acrescentando um espontâneo e alegre sorriso quando o cumprimentou. Ao cessar o sorriso, viu de seus lábios carnudos e bem desenhados sair um “- Sim , estou indo para a praia!” O sinal já tinha fechado e aberto inúmeras vezes, mas não era no mesmo, que pairava seu interesse. Convidou-a para ir com ele, sentar e ver o mar, trocar algumas palavras. Ao chegarem do outro lado, ele sentiu os respingos da maresia e teve seu corpo relaxado. Ela deixava os cabelos livres ilustrarem a paisagem, tão esplêndida quanto a paz sentida.
Sentaram com as pernas cruzadas em posição de índio e se olharam ligeiramente. Seus lábios estavam carentes e o toque na pele era muito desejado, mesmo que em silêncio. Ele arriscou uma sequência de palavras “-Prazer, Giusep!” De imediato ela respondeu “-Anita!” Arriscou mais uma vez, dizendo que Anita era um nome lindo. A moça, sem perder tempo continuou, agradecendo e perguntando a origem de seu nome. Sem saber ao certo, enumerou uma série de países do mundo. Isso a fez rir como se tivesse achado lindo o fato de ele estar todo enrolado. Os olhares se encontraram depois de estarem perdidos. Não restavam dúvidas, que eles se desejavam de forma humana e queriam viver um intenso amor de forma sobrenatural. A aproximação, os primeiros toques nos cabelos e o carinho nas mãos foram inevitáveis. Os ombros se colaram e ficaram de frente um para o outro. Se concentrarem em seus pontos fracos e jogaram no mar as responsabilidades. Aqueles eram momentos únicos e nada poderia atrapalhar.
Se beijaram, primeiro com cuidado e suavidade, porém depois o ardor lhes invadiu e o beijo se tornou intenso e interminável. As batidas estavam sincronizadas. Ele sentia sua respiração, ela o encanto. Os lábios se espalhavam com doçura, sendo ritmados pelo som das aves que em bando gorjeavam sobre o mar. Entretanto, quando ia realmente tomar o controle, com mais vontade e desejo, acordou em sua cama, com os cabelos suados, mãos quentes e uma sensação ofegante, que contagiava sua respiração. A janela estava aberta e presenciou quando ele se lamentou por ser somente um sonho, derramando lágrimas solitárias dos olhos. Os mesmos olhos que viram a morena.



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